Dois Amores
Dois Amores
Um de cabelos livres, esplanadas e alheira.
Cadê o espetinho na praça?
Não tem. Mas tem castanha.
Não gosto de castanha.
Minha mãe, sim.
E a fumaça da castanha nas esquinas é como abraço de mãe: chega antes, envolve sem pedir licença.
A ginja.
O Santo António.
Os amores de verão que prometem tudo e deixam nada.
Os castelos, a história, a memória que pesa e sustenta.
Arcos de pedra, aquedutos, fontes de água que insistem em correr.
Um é continente, gigante.
O outro é pequeno em tamanho, mas enorme em história.
Um não tem memória.
O outro vive dela.
Um renasce e morre conforme a estação.
O outro arde quase o tempo todo, em quase toda parte.
Um parece esposa que cobra presença e fidelidade.
O outro, amante fogosa, intensa, imprevisível.
As festas se misturam na cabeça:
samba, bossa nova e funk.
Fado, jazz e pimba.
Em um, dizem que já estou falando engraçado.
No outro, mandam eu voltar para a minha terra, com o pai angolano do lado.
Num eu tenho Amália.
No outro, Alcione.
Hoje sinto que os dois repelem.
Não acolhem, cada um por seus próprios motivos.
Entre um chopp e uma imperial,
o que sobra é uma bela ressaca
dessas que não são só do corpo,
mas do coração dividido entre dois amores que não sabem (ou não querem) me caber.
Abraços daqueles que não fecham os braços.
Recanto da Flávia
Enviado por Recanto da Flávia em 17/01/2026
Alterado em 22/05/2026
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