A Pedra Fez-se Caminho
Ela encheu as malas com porções de sonhos e atravessou o oceano levando na bagagem a ideia vaga de uma vida nova na Europa. Essas ideias costumam ser cegas. Não veem o chão. Não percebem onde se pisa.
Matriculou-se numa universidade, aprendeu novas palavras, novos hábitos, novos silêncios. Tudo parecia promissor, como se o mundo finalmente tivesse aberto espaço para ela. Até que um dia, como no verso famoso do poeta, havia uma pedra no caminho.
Mas não era pedra poética, dessas que se transformam em metáfora bonita. Era caixa de pedras. Era pedra concreta, pronta para ferir. Pedra lançável.
“Grátis, se for para atirar a um zuca...”
A frase não atingiu o corpo, mas acertou em cheio a alma. Naquele instante, ela finalmente entendeu onde estava pisando. O chão não era neutro. Era de pedra. Frio. Hostil.
Cerrou os punhos. Estufou o peito. Tirou a velha capa de invisibilidade e discrição que aprendera a usar para sobreviver. Não ia mais fingir que não via, que não ouvia, que não doía.
Dias depois, no trabalho, alguém sugeriu, com naturalidade assustadora, uma caixa igual. A mesma ideia. A mesma violência travestida de brincadeira.
Ela não se calou.
Gritou: “Coloque sim. Mas joga vinho e bacalhau!”
Ela iria aproveitar tudo!
Não era só ironia. Era resposta. Era identidade. Era dizer: eu estou aqui, eu sei quem sou, e não sou alvo fácil.
E o chão continuou sendo de pedra. Mas agora, ela sabia exatamente como pisar.
Recanto da Flávia
Enviado por Recanto da Flávia em 17/01/2026
Alterado em 22/05/2026
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