Décimo Quinto Dia
Décimo quinto dia de espera,
eu, que dizia: nunca mais amar
mas veio um mar de doce admiração,
tsunami a me reorganizar.
Veio encanto, alívio e acolhida,
um respeito sereno a florescer;
um querer maduro e tão tranquilo,
um abraço pronto para me envolver.
Jurei que a estrada era só minha,
panela sem tampa a descansar,
pé descalço em chão endurecido,
sem jogo algum para negociar.
Trazíamos marcas do passado,
escoriações a cicatrizar;
falamos delas sem dramatismo,
deixando o encontro nos conduzir.
Foi inusitado o primeiro instante,
romance algum, só vida real;
rotina dura sobre os meus ombros,
e ele ali, presença calma.
Eu, coque feito como em batalha,
sem vaidade, máquina na mão;
sem variar vestido, sem perfume,
fechada em minha própria razão.
Não desejava mudar meus planos,
nem abrir mão de nada;
ele, seguro, ajustando os passos,
a suportar dias cinza meus.
Minhas palavras construíam muralhas,
sem frestas mínimas para erro;
fui cedendo em boa vontade,
baixando as armas do meu desterro.
Comemos rindo do inevitável:
ganhar uns quilos em comunhão;
com mesma linguagem de amor que entendemos,
cozinha feita de afeição.
Então vivi meu despertar,
que nada tinha a ver com alguém;
era um retorno a me amar,
que começou sem ter ninguém.
Ele assistiu como quem mira
borboleta a sair do casulo;
não me tocou, só admirou,
guardando o gesto mudo.
O coque austero já não voltava,
ele notou cada alteração;
falou de medos e antigas perdas,
parecia temer essa reconstrução.
Porque talvez só eu quebrada,
pudesse ainda amor desejar;
mas foi inteira que me descobri
com mais coragem de junto estar.
Recanto da Flávia
Enviado por Recanto da Flávia em 03/03/2026