Antes de existir a cidade, existia a poeira.
Ela entrava pelos olhos, grudava na pele, secava a garganta. Era a mesma poeira que rachava o chão e desenhava mapas de fome nas terras ao Norte. Não era apenas seca era silêncio de governo, era ausência de futuro, era uma vida que não prometia continuar.
Então ele decidiu partir antes mesmo de saber exatamente para onde.
Houve urgência. Daquelas que não cabem em palavras bonitas. Ele subiu em um pau de arara, estrutura improvisada, madeira dura, gente amontoada, galinhas inquietas, sacos de comida dividindo espaço com sonhos frágeis. O nome parecia quase uma ironia: arara. Mas ali não havia cor, nem voo. Só cansaço.
A viagem não era só geográfica. Era uma travessia entre mundos.
Cada quilômetro deixava para trás não apenas a terra, mas uma identidade inteira, a de quem pertence a um lugar, mesmo quando esse lugar não oferece nada. No lugar disso, nascia outra coisa ainda indefinida: a identidade de quem busca.
Buscar o quê? Ele talvez não soubesse dizer. Mas sabia o que estava deixando: a seca, a fome, o limite.
Quando chegou ao Rio de Janeiro, não encontrou o paraíso. Maré que subia.
Barracos de madeira, chão instável. Quando chovia, a casa alagava. Quando fazia sol, o calor apertava. O Estado continuava distante, como se também não tivesse feito a viagem.
Mas havia algo novo ali.
Água. Trabalho. Comida.
Pequenas coisas que, juntas, significavam vida.
Depois veio a companheira da vida toda, os filhos, plantar sementes de netos.
Também deixou um pedaço seu para trás, uma escolha ingrata, que na altura parecia sensata.
A família cresceu como crescem as raízes, se espalhando onde dá, firmando-se como pode. E, sem perceber, começaram a construir outra paisagem: não mais a da terra seca.
A migração não foi apenas um deslocamento. Foi um gesto de resistência.
Ali, entre madeira, lama e sobrevivência, começou a nascer aquilo que mais tarde eu aprenderia a chamar de pertencimento. Não o pertencimento romântico, tranquilo, mas aquele que se constrói na insistência: ficar, adaptar, continuar.
Um homem de visão, que não buscava teoria. Buscava futuro.
E, mesmo sem saber, carregava dentro de si não só a própria vida, mas o início da minha história.
PS: Para meu avô Hosano.