Recanto da Flávia
“Quando uma mulher encontra sua voz, ela ilumina o caminho de muitas outras.”
Textos
Mãe Transfronteira
Ser mãe é, talvez, uma das experiências mais exigentes que a vida pode oferecer. Há dias em que parece que nunca se é suficiente, nem para os filhos, nem para o mundo, nem para si própria.
E, no silêncio mais honesto, também nunca se está plenamente satisfeita. Há sempre algo a ajustar, a rever, a melhorar.
Ser mãe brasileira, latina, imigrante, num país com valores tão distintos, é viver num constante exercício de tradução, não apenas da língua, mas do afeto, da educação e dos limites.
Aquilo que, para mim, é valor, aqui pode soar a conservadorismo. O que entendo como correção, pode ser visto como agressividade. O cuidado, tantas vezes, é confundido com invasão. E assim, no meio dessas diferenças, vamos aprendendo a existir de novo.
Migrei para proteger os meus filhos, para lhes oferecer mais possibilidades, mais segurança, talvez um futuro mais amplo. Mas migrar é também um ato de renúncia profunda. Deixei para trás amigos, família, trabalho, reconhecimento, uma identidade construída ao longo de anos. E o que se pode esperar disso? Nada garantido. É um salto no escuro, um caminho pavimentado de incertezas.
Entre a adaptação, a socialização e, por vezes, a hostilidade de quem não aceita o “filhote de imigrante”, a vida transforma-se numa luta quase invisível. Procurar direitos, entender leis, orientar, proteger, tudo isso exige uma força que nem sempre sabemos de onde vem. Às vezes, sinto-me como Dom Quixote, lutando contra moinhos de vento, insistindo em batalhas que poucos veem.
E, porque desistir nunca foi opção, acrescentei mais um desafio: um mestrado. Entre trabalho, estudo e maternidade, aprendi a equilibrar o impossível. Abriu portas, sim, não apenas para mim, mas para toda a família. Mas o que isso significa, na prática? Que, no meu país, eu era rainha da minha própria história; aqui, sou apenas mais uma. Uma imigrante. E, para alguns, nem isso: apenas alguém que não pertence.
É inevitável, então, pensar na minha mãe. Em quantos “nãos” e renúncias ela acumulou para que eu pudesse chegar até aqui. Hoje, temos mais recursos, mais informação, talvez até um pouco mais de partilha das responsabilidades. Mas o peso, esse continua a existir, apenas com outras formas.
Mudar de casa com filhos já é, por si só, uma pequena migração. Mudar de país é uma travessia inteira. Ainda assim, permanecer com alegria de viver, com vontade de conquistar, com a capacidade de sorrir depois de tudo o que foi superado, isso, sim, é um privilégio. E não é para muitas.
Talvez seja isso que nos sustenta: a consciência silenciosa de que, apesar de tudo, seguimos.
Imperfeitas, cansadas, muitas vezes invisíveis, mas seguimos.
Penso em mim, minhas irmãs, na minha mãe, nas minhas tias, minhas avós, nas mães que fogem do ICE, nas mães que vivem em países com guerras, nas mães que nunca pegaram seus filhos no colo, mães que viram seus filhos partir, nunca mais seremos inteiras depois de parir, seja do útero ou do coração.
Recanto da Flávia
Enviado por Recanto da Flávia em 02/04/2026
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