Marés
Em uma cidade grande demais, distante demais, cheia demais e cheia de possibilidades que não se explicavam. O Rio de Janeiro não era um destino, era uma ideia. Uma dessas ideias que se constroem à distância, onde tudo parece caber: trabalho, comida, recomeço.
Mas a chegada tem outro ritmo.
Barracos de madeira erguidos com pressa e necessidade, chão que cedia à chuva, paredes que não protegiam completamente do mundo. Quando a água subia, levava junto o pouco que havia sido organizado. Quando baixava, deixava marcas, na casa e nas pessoas.
Ainda assim, havia vida pulsando ali.
As manhãs tinham barulho de gente acordando cedo demais. O trabalho não esperava. Era preciso sair, garantir o dia, sustentar a família que agora crescia em um território improvisado. A cidade formal existia em outro plano, asfaltado, distante, quase estrangeiro.
Ali, o tempo era outro, era corrido.
Mas mesmo com a ausência do Estado, havia água. Não havia presença constante, não havia garantia. Mas havia algo que ocupava esse vazio: as pessoas. Vizinhos que se reconheciam, histórias que se cruzavam, famílias que se reinventavam lado a lado.
Não em abundância, não com estabilidade, mas havia. E isso mudava tudo. Água significava possibilidade. Significava que, apesar de tudo, a vida ali podia continuar.
A fome deixava de ser inevitável. O trabalho, ainda que duro, existia. O futuro, mesmo incerto, deixava de ser impossível.
Foi nesse espaço, entre a precariedade e a esperança, que muitas famílias criaram raízes.
Espalham pela superfície, tentando sobreviver às mudanças constantes.
Mas permanecer, isso sim, é um ato de coragem.
E foi ficando, insistindo, reconstruindo, enfrentando altas e baixas marés.
Recanto da Flávia
Enviado por Recanto da Flávia em 02/04/2026