Recanto da Flávia
“Quando uma mulher encontra sua voz, ela ilumina o caminho de muitas outras.”
Textos
Ser de Lá
Existe um momento em que o lugar deixa de ser cenário e passa a ser espelho.

Não acontece de uma vez. Não há anúncio, nem data marcada. É um processo silencioso, quase imperceptível, como quem aprende uma língua sem perceber quando começou a entendê-la.

Não era apenas morar ali.

Era aprender os códigos invisíveis. Saber quem é de dentro e quem é de fora. Reconhecer, no jeito de andar, no olhar, na forma de falar, aqueles que pertencem, e aqueles que atravessam.

A expressão vinha carregada de distância. Não apenas geográfica, mas simbólica. O asfalto era outro mundo, outra lógica, outro tipo de existência. E, ainda assim, estava ali, tão perto quanto impossível.

As histórias vinham de longe: Nordeste, Norte, interiores esquecidos. Cada família carregava um pedaço de outro lugar, sotaques, receitas, memórias, modos de viver. E, mesmo assim, algo novo se formava naquele encontro.

Uma identidade feita de deslocamentos.

Ser dali era, paradoxalmente, ser de muitos lugares ao mesmo tempo. Era ter raízes móveis, que não se fixavam em uma origem única, mas se espalhavam nas experiências compartilhadas.

As casas eram frágeis, mas os vínculos eram fortalecidos.

Havia uma rede que se construía no cotidiano: na vizinhança, na ajuda mútua, nas histórias contadas ao fim do dia. Pertencer não vinha de documentos, nem de reconhecimento oficial. Vinha do convívio, da repetição, da insistência em estar.

Mas havia também o peso do olhar de fora.
Era uma marca social. Algo que definia como o mundo te via antes mesmo de te ouvir. O pertencimento, então, se tornava duplo: acolhimento por dentro, rejeição por fora.

E entre esses dois polos, a identidade ia sendo construída.

Não como escolha livre, mas como negociação constante. Entre o que se é, o que dizem que se é e o que se tenta ser apesar disso.

Com o tempo, a pergunta deixa de ser “de onde você veio?”

e passa a ser outra, mais silenciosa e mais difícil:

até onde é possível sair… sem deixar de ser?
Recanto da Flávia
Enviado por Recanto da Flávia em 02/04/2026
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