
Chega de cima, no barulho que antecede o medo. Chega em operações que não pedem licença, que não explicam, que não ficam. Presença rápida, intensa, e depois, ausência outra vez.
No cotidiano, o que se sente é o vazio.
Faltam serviços, faltam garantias, faltam respostas. A escola falha, a saúde demora, a segurança não protege. O que existe é um intervalo permanente entre o que deveria ser e o que nunca chega.
E, ainda assim, a vida acontece.
As pessoas inventam soluções, criam redes, sustentam umas às outras. O que não vem de fora, nasce dentro. Não por escolha, mas por necessidade.
Mas há um limite.
Exposição à violência, à arbitrariedade, ao acaso. O mesmo poder que se ausenta nos direitos aparece com força no controle. O mesmo Estado que não garante, pune. Que não cuida, invade.
E, nesse movimento, vai se desenhando uma mensagem silenciosa:
há vidas que importam menos.
Muda a forma como se entra, como se olha, como se fala.
Muda, sobretudo, a forma como se morre.
Entre a ausência e a violência, a relação com o Estado se torna uma experiência de desconfiança.
Não se espera presença constante, espera-se, no máximo, não ser alvo.
E isso diz muito.
Porque quando o melhor cenário é não ser atingido, algo já foi profundamente rompido.
Ainda assim, a vida insiste.
Insiste nas casas, nas ruas, nas histórias que continuam sendo contadas apesar de tudo. Insiste na tentativa de existir para além da condição imposta.
Mas a pergunta permanece, atravessando tudo:
como pertencer a um lugar que o próprio Estado insiste em negar?
Resistência, como flor que brota no asfalto!