Empatia
Vocês sabem
quanto amor cabe
dentro de uma mulher?
Não sabem.
E talvez seja melhor assim.
Porque eu nasci com esse defeito:
um coração sem porteira,
sem alfândega,
E eu odeio isso.
Odeio essa doença
de sentir o que não me pertence.
A fome dos outros
entra pela minha boca.
A violência contra uma mulher
deixa hematoma em mim.
A corrupção
me rouba o ar
mesmo quando não roubou
o meu dinheiro.
A miséria alheia
tem uma chave
e abre a minha casa.
Meu pai dizia:
“Você ama demais.
Deveria amar menos.”
Talvez ele tivesse razão.
Ele via meu envolvido com questões sociais, quer a filha inteira.
Talvez amar menos
seja mesmo uma forma eficiente
de sobreviver.
Eu tentei.
Juro que tentei.
Mas há pessoas
que nascem com o privilégio
da indiferença.
Eu não.
Que merda de coração.
Não sabe calcular.
Não sabe economizar.
Não sabe escolher
quem merece.
E o pior:
não estou falando de amor romântico.
Esse é o menor dos problemas.
Estou falando dessa coisa
absurda e inconveniente
de reconhecer humanidade
até onde seria mais confortável
enxergar apenas números,
notícias,
estatísticas,
corpos.
Às vezes penso
que empatia é doença.
Uma espécie de febre
que ninguém diagnostica
porque o mundo precisa
dos saudáveis demais
para continuar funcionando.
Ser saudável talvez seja ser egoísta.
Então talvez eu esteja doente.
Talvez.
Mas, sinceramente,
olhando para o mundo,
começo a desconfiar
que o verdadeiro transtorno
é conseguir viver nele
sem sentir absolutamente nada.
Recanto da Flávia
Enviado por Recanto da Flávia em 03/10/2026
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